Escrevendo Um Conto


Mario Ulbrich

Escrevendo Um Conto
Escolhi a poltrona que me pareceu ser a mais confortável e sentei-me em frente à sua escrivaninha:
- Tio Paulo, podes me esclarecer se é um conto o mesmo que uma história?
Ele interrompeu sua leitura, retirou os óculos num gesto lento e olhou-me com atenção, como se pretendesse avaliar a razão do meu interesse.
-Absolutamente não, Guilherme, embora um bom conto inicie por uma boa história. Pode-se dizer que o conto é uma narrativa que valoriza o conflito, não o personagem, e que seu objetivo é causar impacto.
- Interessante esta definição, Tio!
Ficamos por breve momento calados. Ele aproveitou a pausa e pôs-se a olhar através da janela o rebanho de gado estendido de horizonte a horizonte, na verde amplidão do campo. O açude refletindo o azul do céu ornado por brancas nuvens.
Esperei ele voltar a atenção para mim e lhe fiz nova pergunta:
- E como devo escrever um conto?
Meu tio é um advogado que há muito encerrou suas atividades profissionais, declarando sua aposentadoria e passando a administrar a fazenda, herança de seus pais. Eu o visito sempre que possível, aproveitando para desfrutar a vida rural que minha mãe negou-se a viver, ao trocar a parte da estância que lhe cabia, por propriedades na capital.
- O primeiro passo é selecionar a história. O conto deve ter um texto curto. Os personagens criados, em número reduzido. A seguir posicionar a história no tempo para bem ambientá-la. Embora uma obra de ficção, deve manter verossimilhança com os acontecimentos da época enfocada.
- Como assim verossimilhança?
- É sinônimo de coerência. Você pode criar uma cena, mas não será adequado nela introduzir uma carroça, caso o conto se desenrole em época anterior à da criação da roda. Se bem que Júlio Verne descreveu uma viagem à lua, num tempo no qual os homens ainda usavam cartolas. Mas até aí já estamos falando de literatura fantástica.
- Ah! Entendi! Mas que gritaria é esta que está acontecendo agora lá fora?
Ele voltou mais uma vez a cadeira em direção à janela e pôs-se a espiar. Um grupo de campeiros reunia reses no potreiro. Ouvia-se uma confusão de sons, bater de cascos, chocar de guampas, sibilar de laços, latidos de cachorros.
- É o Hernandes, acompanhado de alguns peões, campeirando um lote de terneiros.
- Voltando à nossa conversa, falastes na criação de um número reduzido de personagens, em um conto?
- Poucos, importantes e bem estruturados. Devemos indicar seus hábitos e maneiras de agir, mais com ações do que com descrições. Definir a missão que deverão cumprir.
- Não havia sequer pensado nisto!
Também decidir se o narrador será ao mesmo tempo personagem. Se o conto será narrado em primeira ou terceira pessoa.
Fez-se ouvir agora com maior intensidade o ruído da lida. As rezes selecionadas estavam sendo confinadas no piquete próximo ao galpão. Breve se daria início ao abate.
O silêncio cortou nosso diálogo. Paulo parecia haver adormecido, afundado em sua cadeira. Levantei-me no intuito de me retirar, mas voltei a sentar ao ouvi-lo dar prosseguimento à conversa:
- Mais importante do que a parte que está sendo narrada de forma explícita é a parte do conto não evidenciada, que de forma sutil vai sendo narrada nas entrelinhas e que muitas vezes não chega a ser percebida de imediato pelo leitor. Ela vai se evidenciar ao final e colocar, de modo figurado, o conto de cabeça para baixo, ao descrever uma inesperada surpresa.
Depois de nova pausa:
- O Hernandes não havia abandonado o serviço da fazenda? Por que retornou?
- Esta é uma longa história. Um dia apareceu aqui na fazenda um taura vindo das bandas da fronteira – castelhano – procurando trabalho. Hernandes pediu referências e testou o maula no serviço, recomendando sua contratação. Eu concordei com o pedido visto que estávamos com carência de empregados. Nos dois ou três primeiros meses tudo andou às mil maravilhas. O homem mostrou-se guapo para o serviço. Em um dado dia, Hernandes retornando de um trabalho no distante fundo da invernada, deparou-se com uma agitação junto à entrada de seu rancho. Encontrou sua mulher sendo socorrida pelas vizinhas, semidespida e desacordada. Havia sido agredida e haviam indícios de ter sido abusada. Por instinto procurou pelo pote onde guardava suas economias e o encontrou aos cacos, espalhados pelo chão. Irado, questionando o pessoal, soube que o castelhano havia fugido às pressas.
Deixando sua mulher aos cuidados das vizinhas, encilhou o pingo e saiu no rastro do fugitivo.
- Mas então, tio Paulo, ninguém ouviu prováveis gritos de socorro?
- Na verdade, só eu ouvi. A casa do capataz fica junto da casa da sede e distante do casario dos peões. Eu fiquei curioso ao ouvir o insistente latido dos cachorros. Encontrei-a caída desacordada, com as roupas rasgadas. Levantei-a do chão e a coloquei na sua cama e saí em seguida em busca de socorro.
- Esta história aguçou minha curiosidade! E qual foi a reação do Hernandes?
- Retornou uma semana após o incidente. Pediu-me as contas, colocou a mulher na garupa do cavalo e deu às vilas. Carente de um capataz experiente, fiz uma oferta generosa de salário e contratei um novo capataz, do tipo daqueles nascidos para a lida, que trabalhava em uma propriedade vizinha. Atendia pelo nome de Antão e não me deixou sentir a falta do Hernandes. Foi uma jogada certeira a minha e confesso que, ao contrário do que poderiam pensar, me alegrei com a troca.
- Mas veja só, que alívio, Tio!
- Alívio que nada! A vida é repleta de imprevistos. Num rodeio grande, tentando desviar uma ponta de reses que disparava em direção a uma cerca de arames de espinho, Antão sofreu um tombo. Seu cavalo enfiou as patas em um buraco e rodou, atirando-o contra a cerca. Com o impacto do ginete, cavalo e algumas reses, a cerca arrebentou. Quando conseguiram desembaraçar o capataz dos fios enrolados do aramado, o homem já estava morto, com o pescoço partido.
- Que história incrível. Novamente ficastes sem capataz!
- Mas repara bem como as coisas são, sobrinho. As notícias não correm, voam! Nem bem enterrado o Antão, apareceu de volta na fazenda, com a mulher a tiracolo o Hernandes, pedindo de volta seu antigo posto.
- E pelo que pude ver, logrou sucesso. E como a coisa finalizou?
- O Hernandes proibiu a peonada de sequer tocar no assunto, mas para mim falou que sua mulher lembra em detalhes a agressão e o furto, mas jura nada lembrar do abuso sexual. Fica aterrorizada quando sequer ele menciona o assunto. Entra em depressão e cai num mutismo que dura semanas. Parece ainda temer que alguma coisa possa vir a acontecer.
E quanto ao castelhano?
- Disse-me que o homem se escafedeu cruzando de volta a fronteira; no entanto falam à boca pequena por aí que ele está morando em baixo da terra.
- Será mesmo, Tio?
- Eu não sei e nem procuro saber. Já ouvi comentários que logo após os acontecimentos, no alagado da invernada grande, próximo a um umbu solitário, começaram a surgir no breu das noites sem lua, visões de fogos-fátuos. Do pouco que sei sobre o assunto, estes fenômenos podem ter origem em sepulturas situadas em terrenos alagadiços.
- Uma curiosidade última tio Paulo. O que se ficou sabendo sobre a vida pregressa do Castelhano?
- Muito pouco! Muitos empregos, pouco tempo de permanência neles, uma bebedeira aqui, um pequeno deslize acolá, mas nada de maior.
- E quanto a estupros?
- Nada. Ficha limpa. Mas agora Guilherme, vamos encerrar a conversa por aqui. Nestes tipos de assuntos quanto mais se mexe, pior a coisa fica.
Agradeci ao Tio Paulo a prosa e os ensinamentos. Saí para acompanhar o abate do gado. Vislumbrei o Hernandes comandando a lida.
Uma questão ficou desde então martelando no meu cérebro. A única pessoa que poderia descrever os acontecidos entre a agressão física e o estupro, negava-se a falar. Horrorizada com os acontecimentos ou temerosa de novos desdobramentos?
Não sei até hoje definir se o que ouvi de parte do Tio Paulo foi uma história incompleta ou só o exemplo de um conto.


Mário Ulbrich
Abril de 2020

voltar

Mario Ulbrich

E-mail: mrs.ulbrich@gmail.com

Clique aqui para seguir este escritor


Pageviews desde agosto de 2020: 2390

Site desenvolvido pela Editora Metamorfose